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MUITOS CARNAVAIS

Caboclinho, subúrbio e maravilha

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Nas ruas e quebradas do Recife, uma dança colorida e sincrética ganha força nova, e multiplica sensações de pertencimento, depois de mais de um século de existência. Visita às ruas por onde ele se esparrama, e aos bairros, casas e becos onde é tramado

Carolina Gutierrez - (21/02/2008)

Tupiriçá, Taquá.
Que caboclo são vocês?
Sete Flexas.
Sete Flexas em cima, do alto daquela serra pede o grito de paz ou guerra.
Guerra!
Vinte e quatro candeia.
Corta o pau do caboclo.
Corta o pau tira o mel.
Uma abelha no sul,
Outra no céu

Loa de caboclo Sete Flexas

Dia 31 de janeiro. Rua da Moeda, Recife Antigo. O encontro de Caboclinhos está marcado para as 19h. São 18h. O sol, cansado, já se esconde. De longe, vem um som abafado porém ligeiro, de uma gaita (como chamam a flauta ou inúbia). Aos poucos, o som aproxima-se e traz consigo os primeiros grupos. As diferentes cores vão se misturando. Os caboclos e as caboclas vão tomando seu lugar na ordem do desfile. Dançam, cantam, tocam num amontoado de gente. Cada um com um colorido diferente. Brancos, roxos, vermelhos, laranjas, verdes, brilhantes, furta-cores... As toadas diversas embaralham-se nos ouvidos e dão o tom de como será o 1º Festival de Caboclinhos de Pernambuco. Ao todo, são 22 grupos.

Numa desordem organizada e bem-vinda, as ruas — pistas de Momo — vão dando passagem e o desfile começa. Agora, os grupos – cada um composto por algumas dezenas de foliões – separam-se um dos outros. Cada um com sua toada, começam a tocar e dançar.

Em cada grupo, o rodopiante porta-estandarte é o primeiro a despontar. Vem seguido de dois cordões paralelos de caboclos e caboclas. Cordões de homens, mulheres e crianças que dançam no ritmo seco da preaca (espécie de arco e flecha de madeira usado como instrumento). No centro, apresentam-se, pomposos e majestosos, o cacique e a cacica (mãe da tribo). Entre os “personagens”, também estão o Pajé ou Curandeiro (orientador espiritual do grupo), vestido todinho de palha; o Capitão ou Guia; e o Tenente ou Contra-guia – chefes da ala das cabocladas. Há ainda os valiosos pero, que são as crianças-curumins e os caboclos de baque – "músicos do terno“, orquestra.

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"Os ritmos encontram a presteza necessária à execução nas pernas e pés descalços dos brincantes" (Foto: Ormuzd Alves)

O som ágil e melódico da gaita, acompanhado da percussão (caracaxás, ou maracas, ou exeres — uma espécie de chocalho), surdo e atabaque, executa as variações rítmicas do Perré, Baião, Guerra e Toré ou Macumba. Os ritmos encontram a presteza necessária à execução nas pernas e pés descalços dos brincantes, que evoluem sobre ruas de paralelepípedos. Trupés são feitos com natural velocidade. Os corpos dos brincantes parecem se adequar à dança, ou o contrário. Vendo, tenho a certeza de que esse folguedo, essa dança, faz parte de seus corpos. É como se esses mesmos corpos tivessem sido moldados para aquilo. A exuberante coreografia é comandada pelas apitadas do Guia. E a dança guerreira é acompanhada do som da preaca.

Todas as coreografias são ornadas com indumentárias ricas em plumas de ema, lantejoulas e espelhos. Na cabeça, vê-se um cocar de plumas ou um estandarte todo bordado de lantejoulas. Usam também uma tanga de plumas – da cintura até o joelho – e atacas de mãos e pés de penas coloridas. Na cintura, usam ainda pequenas cabaças ou machadinhas; nas mãos, as preacas percutem ao som do terno. Além de toda essa riqueza, tem-se o estandarte do grupo. De veludo e bordado com lantejoulas, os desenhos assemelham-se às heráldicas – a arte armorial de que Ariano Suassuma tanto fala e ama.

Já passaram todos. Prosseguem “dançarilhando” até o Marco Zero. Lá é o ápice do Festival. Todos os grupos misturados. Alguns no palco, outros na terra. Chega a hora das homenagens aos mestres mais antigos ou figuras conceituadas, ou importantes pra evolução do carnaval e das culturas populares. As homenagens são comuns no carnaval de Pernambuco – acontecem todos os anos. Entre outros, Paulinho do caboclinho Sete Flexas sobe ao palco para representar seu pai – o mestre Zé Alfaiate.

Quinta-feira pós-carnaval. De uma hora para outra, pareço ser transportada para um universo mágico de fantasia, que contrasta com o bairro, o beco e exterior do sobrado

Bairro de Água Fria, subúrbio de Recife. Quinta-feira pós-carnaval. Agitação no Beco da Beliscada. Rua pequena de paralelepípedos – um beco! Subo uma escada íngreme e estreita. Paredes azuis. Infiltração. Adentro um sobradinho de dois quartos, uma sala, cozinha, banheiro. De uma hora para outra, pareço ser transportada para um universo mágico de fantasia, que contrasta com o exterior do sobrado. Todos seus cômodos estão repletos de alegorias, penas, plumas, cocares, estandartes, lantejoulas.

Televisão ligada na cozinha. Aproximo-me. Numa cadeira bem em frente à TV, encontra-se, concentrado, José Severino dos Santos, 84 anos, – o Mestre Zé Alfaiate homenageado no Marco Zero. Adoentado, o velho, fundador e presidente do Caboclinho Sete Flexas, me olha e diz sorrindo: “Venha menina. Sente-se aqui”. Sigo até ele com um sorriso no rosto, cumprimento-o com um abraço e sento-me. Ali estão também: Marlene Franscisca Neponcine, 70 anos, mulher do mestre; Ruã, 14 anos, ágil tocador de gaita (como chamam a flauta ou inúbia); e Douglas, 16 anos. Todos são participantes do caboclinho Sete Flexas. Paulinho, filho de Mestre Alfaiate e vice-presidente da agremiação, chega logo depois e senta-se ao meu lado. E a prosa – o que os distintos leitores chamariam de ‘entrevista’ – começa.

Quinta-feira pré-carnaval, no Marco Zero: Enquanto os homenageados discursam – nas suas maneiras caboclas – os demais grupos continuam a zoada. Sem formalidades, a brincadeira do caboclinho não pára. Aliás, o caboclinho pode também ser chamado de cabocolinho. A manifestação é típica de Pernambuco e Alagoas, mas também existe lá pras bandas da Paraíba, Rio Grande do Norte e Minas Gerais.

A zoada surpreende nos detalhes e diversidades dos passos, da maneira de brincar. Cada grupo de caboclinho tem a sua própria estrutura e peculiaridades. Penso que talvez há maiores variações entre eles do que em qualquer outro grupo carnavalesco. Muda o ritmo, mudam os passos. Em alguns grupos, inclusive, podemos perceber o sincretismo dos passos com outros folguedos, como o cavalo-marinho (proveniente do bumba-meu-boi, é celebrado no Natal). O que não muda é a tradição e maneira de apresentar-se.

E essa tradição, de inspiração indígena, é celebrada aqui no carnaval. Paulinho Sete Flexas explica que a religião é muito presente na manifestação. Algumas das tribos de caboclinhos são seguidoras do candomblé e da umbanda; outras, cultuam a linha da Jurema ou Catimbó. No caboclinho Sete Flexas, todos os integrantes tomam a jurema – bebida feita de ervas da mata, vinho, champagne, mel, afavaca do caboclo, liamba, mastruz, cimento de caboclo. A jurema prepara e protege a brincadeira do caboclinho.

Sua casa simples, descrita no princípio, é a sede do Sete Flexas. Zé Alfaiate e sua família são a vida do brinquedo, ao mesmo tempo, que o brinquedo lhes dá vida

A prosa recomeça, na cozinha cheia de plumas de Mestre Zé Alfaiate. Todos falam ao mesmo tempo, todos querem expressar-se. Os bloquinhos de jornalista não escapariam de uma profusão de rabiscos desordenados. E o meu não foi exceção. Para organizar meu bloquinho, meus ouvidos e minha cabeça, pedi que falassem um por vez, o que não aconteceu. Rendi-me e pedi que, pelo menos, falassem mais devagar.

É quando Mestre Zé Alfaiate, com sua voz mansa de quem já aprendeu muito dessa vida de brincante, toma a palavra e começa a desenrolar sua bela história: “Olhe menina, eu brinco o caboclinho desde os 10 anos de idade. Quando era criança, vivia atrás do caboclinho Carijós. Hoje tenho meus 84 anos, já não pulo mais, mas continuo na brincadeira. Minha brincadeira de toda vida é o caboclinho. Eu amo”. E continua na falação. Diz que até hoje confecciona as vestimentas – desenha e borda. Até mesmo no momento em que era homenageado no Marco Zero, Zé ficou a bordar. “Fiquei trabalhando em minha homenagem. Tou adoentado, tinha vontade, mas fiquei aqui trabalhando. Sabes, começo mais cedo do que os outros e me deito sempre mais tarde”, confessa orgulhoso.

Nesse exato momento, Dona Marlene, a esposa, diz emocionada: “Ele é um lutador pela brincadeira. Vende tudo de dentro de casa pra não parar a brincadeira”. Nessa hora quem se emocionou fui eu, ao perceber e ao sentir o quão misturados e casados são a vida e o caboclinho de Mestre Zé Alfaiate. Sua casa simples, descrita no princípio, é a sede do Sete Flexas. Zé Alfaiate e sua família são a vida do brinquedo, ao mesmo tempo, que o brinquedo lhes dá vida.

O mestre conta que fundou o caboclinho Sete Flexas em 1969, em Alagoas. Depois veio para Pernambuco. “Freqüentava um terreiro de umbanda. Naquela brincadeira de chamar o caboclo, recebi o Sete Flexas, que é caboclo sozinho; um curandeiro. Foi em Maceió, nos anos de 1969. Em 1971, vim embora pra Pernambuco e registrei o Caboclinho Sete Flexas, que participa do desfile até hoje”.

Ainda no Marco Zero, descobri que o Sete Flexas, apesar de ser um dos caboclinhos mais conhecidos, não é o mais antigo. Dos mais de 60 grupos, os mais antigos são o Carijós (1889) e o Canindés (1897). A brincadeira existe há mais de um século e eu ainda acho que estou contando uma novidade do carnaval de Recife.

É incrível quanto o caboclinho e outros folguedos populares possuem centralidade nas relações sociais. Faz parte de sua produção simbólica. É um exercício intuitivo de pertencer ao mundo

Uma brincadeira de rua, como todas as do carnaval de Pernambuco. Um folguedo rico em cores, alegria, beleza, tradição. Rico, sobretudo, em significado. E um significado diferente do que nós, turistas culturais brasileiros, em nossa própria terra, atribuímos ao folclore. Um significado de vida para os caboclos e caboclas.

É incrível poder sentir, por meio do contato com essas pessoas, o quanto o caboclinho e todos os outros folguedos populares possuem centralidade nas relações sociais. Além de divertimento, a prática do faz parte de sua produção simbólica. A arte apresenta-se como um exercício intuitivo de perceber o mundo, estar e, sobretudo, pertencer a ele. Dar sentido as suas existências. E pra mim essa percepção fez com que a cultura popular tivesse um significado prático, que vi acontecer na minha frente.

Concordo com compositor e professor Juraci Tavares: “Não acredito em folclore. Penso que a denominação ‘folclore’ é uma tentativa de descaracterização da cultura. O que o povo faz não é folclore, é cultura”. O folclore se fez vivo diante de meus olhos. Pulsante. Alegre. Lindo! E vi que a cultura — que não é folclore — não vai acabar. É só reparar quanto de passos, manobras e evoluções novas o próprio Paulinho Sete Flexas cria todo ano, em sua criativa cartilha de passos - neologismos da dança!

E agora entendo, também, a importância da tradição que o escritor e pesquisador de literatura de cordel e de cantoria de viola nordestina Bráulio Tavares insistiu em me explicar: “A tradição está para um povo assim como a memória está para um indivíduo. Um indivíduo amnésico não perdeu somente seu passado, perdeu também seu futuro, porque seus planos regrediram à estaca zero, ao grau zero da individualidade. Quem cria, cria numa tradição.”

Agora, na cozinha de Mestre Zé Alfaiate, todos voltam a falar ao mesmo tempo. As pessoas presentes vão se emocionando com o desenrolar da história – história que é delas. Sustentar um caboclinho não é fácil. “Olhe, pra levantar esse caboclinho eu pedi muito. Saía e saio batendo nas casas pedindo ajuda, vou na prefeitura, tudinho. Quando não somos campeões, faço de tudo pro caboclinho continuar. Vendo televisão, vou em agiotas...”.

Nas ruas confeitadas do carnaval, nas ruas esburacadas e pobres do subúrbio de Recife, nas ruas de terra vermelha e pedregulho do sertão. Em todas as ruas, o brinquedo, a tradição permanece

Eu me pergunto o porquê de tanta dedicação. Todos vivem o caboclinho, ensinam as crianças. Perdem tudo para não perder o caboclinho. Na minha ansiedade de entender, pergunto a Paulinho o porquê. Então, a história da vez passa a ser a de Paulinho. Mestre Alfaiate retira-se para a janela: “Vou espiar a festa da rua” (nesse dia o bloco dos Irresponsáveis fechava o carnaval da periferia recifense).

“Veja, eu danço desde os 2 anos, agora tenho 36, faça as contas”, conta Paulinho. E com lágrimas nos olhos, chora: “É minha paixão. Se tirar o caboclinho de mim, sai uma parte do meu coração. Eu sinto amor, sinto carinho, primeiro por meu pai, depois pelas crianças. Quando danço o caboclinho, me sinto vitorioso e muito rico. Vejo que o povo ama a minha cultura”. Entendo agora que o caboclinho é mais do que uma tradição, ele faz parte do ciclo de vida e das referências dessas pessoas. Ele devolve a dignidade a elas.

Nas ruas confeitadas do carnaval, nas ruas esburacadas e pobres do subúrbio de Recife, nas ruas de terra vermelha e de pedregulho do sertão. Em todas as ruas, o brinquedo, a tradição permanece. E permanece não porque é uma simples festa feita pra turista ver, mas por ser parte da existência dos brincantes. Os folguedos, assim como o carnaval, existem por levar a alma, as cores, os brilhos, os sorrisos dos foliões. Levar as bonitezas feitas pelas mãos, pelos corpos, pelo alvoroçar da magia que é a cultura popular.

Veja, o homem de mãos rudes, que trabalha como pedreiro é o mesmo que borda as lantejoulas — uma a uma — das vestimentas do folguedo. Na minha visão distorcida, isso me parecia impossível, conflitante, mas é real e, paradoxalmente, belo.

Essa cultura polissêmica, multicolorida carregada de crenças, supertições, com a presença marcante e antitética do sagrado e do profano, do bonito e do feio, e que quase sempre contrasta com a miséria e o analfabetismo de seus protagonistas, permanece em Pernambuco e no âmago de seus brincantes, caboclos, foliões, mascarados, fantasiados e personagens que retratam a terra dos Joãos Grilos, Chicós, Quadernas, Catirinas, Mateus e Bastiões. A terra do “Ser Tão”.

Eu me emociono. Por que não? Se até Pina Bausch chorou, quando viu os caboclinhos dançarem. Se até os jornais franceses escreveram sobre Paulinho, quando ele esteve no Ano do Brasil na França. “Saiu até matéria no jornal de lá, mas nunca cheguei a ver, só de ouvir falar. Acho que era assim: ‘Paulinho Sete Flexas, o rei da dança – ele flutua no ar”, conta o caboclo.

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Galeria de fotos:

Fotos de Ormuzd Alves

Caboclinhos

Carnaval Pernambuco- 2008



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